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segunda-feira, 5 de março de 2012

Sou mais o exercício intelectual

Carlos Lúcio Gontijo

Que me desculpem os que almejam morrer em plena forma e aparentemente saudáveis. Perdoem-me se insisto em recusar o conselho de medir e pesar, dolorosa e obcessivamente, calorias à mesa, onde me permito guiar apenas pelo desejo e o encantamento dos olhos do estômago. Não tenho a menor dúvida de que, se o nutricionista (profissional inegavelmente indispensável em restaurantes, hospitais e toda a cadeia da indústria alimentícia) tivesse surgido em concomitância com a criação do bicho homem, a raça humana não teria sobrevivido. Afinal, ai de nós se não fosse a carne vermelha!

A vida é dura e cercada de imprevistos e, como Cristo nos ensinou, é preciso amar ao próximo, não por questão de cunho religioso, mas sobretudo em prol de nossa sobrevivência. A amizade é o melhor elixir da vida e merece ser constantemente festejada com o milagre da transformação da água em vinho.

Estou completamente fora dos preceitos indicados pelas modernas cartilhas que colocam a saúde como patamar a ser alcançado com absoluta economia de vida, que reconhecidamente começa a se perder desde o nascimento, independentemente de você aproveitá-la ou não. Desde o dia em que assisti à morte de cidadão com idade entre 40 e 45 anos, que corria pela Avenida João César de Oliveira, em Contagem/MG, em uma manhã de sábado ensolarado, eu troco de canal de televisão sempre que uma jovem nutricionista de silhueta bem magra, com leveza de folha de alface, se me vem cheia de dicas e recomendações de muita atividade física e extremo cuidado em relação aos alimentos, inclusive os indicados por ela mesma como ótimos para uma refeição equilibrada.

É por essas e outras que tenho visto cada vez menos televisão, pois quando a programação não está mergulhada em casos de violência, há sempre uma coisa, um escândalo qualquer para manter o telespectador em estado choque, por intermédio de algum especialista, sempre as mesmas figurinhas carimbadas, com suas caras entediadas e pretensa sabedoria.

Meu pai completa 88 anos em julho deste ano e ainda come pé de porco, costelinha com mandioca, suã etc., além de tomar uma latinha de cerveja na hora do almoço. Até o meio do ano passado, fazia questão de ir ao rancho de pescaria que mantém há muitos anos, lá pelas bandas do Pantanal Mato-grossense. Não sei nem tenho certeza se ele estaria vivo se tivesse, em algum momento, resolvido entregar-se aos cuidados de uma nutricionista. Incrivelmente, as pessoas estão fazendo do prazer de se alimentar um penoso simulacro de tortura física e psicológica, uma fonte explícita de anorexia, principalmente entre os jovens.

O que há de gente nova e atletas morrendo de ataque cardíaco, na chamada flor da idade, por aí é uma enormidade! É claro que o sedentarismo é completamente desaconselhável, mas daí a levar uma vida como se estivesse se preparando para competir uma olimpíada é outra coisa, como costumava me dizer o saudoso José Cândido Ferreira (faleceu aos 100 anos), um fraternal amigo, autor de belo livro, lançado quando ele tinha 88 anos.

Num país em que o acesso à consulta médica se acha muito distante de ser democratizado, fator que fomenta a cultura da automedicação e da compra de medicamento sem receita, é uma temeridade a iniciativa de maciça disseminação de propaganda incentivando a população a se exercitar, sob a ameaça subliminar de que, sem a prática de exercício físico, entregar-se-á mais cedo aos braços da morte, que é o draconiano imposto emitido pela receita ou controladoria celestial, indistintamente, sobre todos os seres vivos.

Gostaria muito que os que propagam a atividade física quase em nível profissional para todo mundo se dessem ao trabalho de levantar dados sobre a longevidade dos atletas, apontando a porcentagem deles que chega pelo menos aos oitenta anos, pois o que tenho em mente, por exemplo, são personagens como o falecido jornalista Barbosa Lima Sobrinho, que editava seus artigos em vários jornais Brasil afora, cujo único exercício era caminhar de casa para o trabalho, e o arquiteto Oscar Niemeyer, que se ocupa, há mais de um século, tão-somente da atividade intelectual e do olhar atento às curvas femininas que servem de inspiração aos seus desenhos arquitetônicos.

Sei não, chego a conjeturar que atividade mental contínua e permanente – com muita leitura, ouvidos abertos a composições musicais de qualidade, idas ao teatro, ao cinema, a exposições artísticas, a palestras e seminários, visita a museus e cidades históricas – seja capaz de acumular mais benefícios aos seres humanos que a exaustiva perda de suores e manutenção de rija musculatura física.

Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br

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