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sexta-feira, 22 de julho de 2011

A DESEDUCACAÇÃO OFICIAl

Carlos Lúcio Gontijo

(...)Nada disso deve tirar-lhe a iniciativa boa e salutar de continuar apostando espontaneamente na pessoa, no ser humano iluminado, que não pode ser desacreditado. (Trecho extraído do romance “O Contador de Formigas” – CLG/1998) Não resta a menor dúvida de que a ditadura militar contribuiu para o aniquilamento de toda uma geração no tocante à formação de novos líderes, para a criação de um ambiente propício ao alastramento da erva daninha do Estado negocista e aético, semeado pelo neoliberalismo econômico e fertilizado exatamente no vazio de sentimento de nação e filosofia de espírito coletivo. Inacreditavelmente, se levarmos em conta os elogios que são feitos nas colunas e páginas necrológicas dos meios de comunicação em homenagem a cada político que morre, não dá para entender como a corrupção, o fisiologismo, os intermináveis escândalos e a malversação do dinheiro público sejam assuntos corriqueiros do noticiário jornalístico. Até parece que político morto se torna imediatamente em político bom! Vivemos uma democracia ainda firmada em alicerces fincados na areia movediça do autoritarismo. Nosso ensino permanece sob uma estrutura pedagógica avessa ao incentivo crítico, com a escola visualizando no estudante questionador um aluno-problema. Grande número do contingente de professores brasileiros foi instruído dentro de um regime que abominava os livros, censurando todos os autores e obras literárias que contestavam suas práticas discricionárias. E, infelizmente, passados os anos ditatoriais, o novo regime, então deliberada e democraticamente, também não cuidou da educação, deixando os professores ao deus-dará dos baixos salários e, portanto, sem condição de comprar livros além dos necessários ao tema curricular ou buscar cursos de aperfeiçoamento. Cremos que a forma deturpada com que se conduz o ensino hoje – transformado em fábrica formal de diplomas, por meio da qual jovens que mal sabem grafar o nome vão engordar as pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontam a queda do analfabetismo no Brasil – explica de forma clara o porquê da existência de tantos estudantes que leem, mas não entendem o conteúdo do texto, apesar de se encontrarem prestes a sair do ensino fundamental, ao qual terminam sem dominar a escrita e a leitura. Fala-se muito em campanhas voltadas para o estímulo à leitura, porém o governo, por intermédio do MEC, envia às escolas um pacote de livros escolhidos por uma comissão de notáveis intelectuais (sabe lá Deus movidos por que forças estranhas!), desrespeitando usos, costumes e linguagens regionais desse vasto Brasil. Certamente, com tal procedimento, leitores potenciais são desestimulados logo ao contato com o primeiro livro, exatamente pela inexistência de proximidade. Lembramo-nos de que entre os 1990 e 2000, os leitores-mores, sob o pálio de oficial sabedoria (como ainda agora acontece), selecionaram 100 títulos destinados à biblioteca básica de todas as escolas de ensino fundamental, cometendo inclusive o desatino de não incluir um livro sequer versando sobre ciências; contudo indicaram “Os Sermões”, de Padre Antônio Vieira, e “As razões do Iluminismo”, de Paulo Rouanet. Indubitavelmente, o hábito e o gosto pela maquiagem é um procedimento herdado dos tempos de ditadura militar, em que os generais se revezavam no comando da Nação brasileira, na tentativa de dar um aspecto democrático ao autoritarismo. O que temos de real é que, sem a democratização do acesso da população a ensino de qualidade (não basta garantir vaga em escola), a democracia jamais será regime de fácil materialização em nosso dia-a-dia, uma vez que não raro as urnas são usadas para ungir administrações danosamente autoritárias, que se utilizam do sufrágio que lhes é concedido pelo voto popular e agem como se fossem ditadores iluminados pelo histórico divino poder dos reis.

Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br

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